Toy Story 3 de Lee Unkrich

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É muito interessante observar a profunda afinidade que existe entre Toy Story 3 e o curta Dia e Noite (os dois foram exibidos juntos no cinema e o curta aparece como extras no DVD). No fundo, ambos tratam da mesma temática, a centralidade da amizade para a constituição de uma ética da alteridade e da diferença. Porém, cada um aborda essa problemática a partir de diferentes perspectivas. Enquanto Dia e Noite constrói um belo elogio da amizade, no qual duas criaturas tomam consciência da possibilidade de conviver com o outro não como uma ameaça, mas como a chance de compartilhar novas maneiras de existir, Toy Story reflete sobre a negatividade da amizade, ou melhor, sobre o risco constante da experiência a dois ser enclausurada e transformada numa unidade, fechando qualquer possibilidade de compartilhamento ou de convivência com o outro. Essa inversão acontece quando o amigo é substituído pelo tirano. Como se sabe, este par conceitual (amigo/tirano) ocupou um lugar muito importante no pensamento ocidental, funcionado como duas possibilidades antinômicas da experiência política e/ou da existência comum. Muitos autores trabalharam com esse tema, mas a reflexão mais interessante, sem dúvida, é aquela formulada por Etienne de la Boétie, num curto texto intitulado Discurso da Servidão Voluntária. Sua obra parte de uma certeza, qual seja, a de que o homem é naturalmente livre e não há nada mais importante para sua existência do que a manutenção dessa liberdade. Porém, por alguma razão, os homens aceitam livremente subjulgar a si próprios perante a figura do tirano. É o nascimento desse desejo de obediência, uma vontade intima de servidão, que assombra e motiva sua reflexão. Para la Boétie, toda relação entre amigos é fruto de encontros fortuitos, de momentos alegres nos quais os indivíduos encontram-se dispostos a compartilhar seus desejos, criando um espaço de experiência comum (portanto desprovida de hierarquias). Porém, há sempre o risco de um mau encontro, de uma trágica fatalidade, na qual a dimensão alegre do desejo se converta numa experiência negativa e ressentida. É quando um homem pode se proclamar o Um, aquele que está a parte e que por isso pode conduzir e comandar os demais, destruindo a multiplicidade em favor de uma única vontade de servidão. O tirano é a figura por excelência da (im)potência: ele não pode nada, recebe somente aquilo que os demais estão dispostos a lhe dar, sua força se alimenta da vontade de obediência, do ressentimento que ele mesmo inaugurou. Nessa existência triste e soturna, não é apenas a liberdade que desaparece, mas a possibilidade mesma dos indivíduos compartilharem qualquer tipo de experiência, exceto a vontade de servir. Como fala la Boétie, o tirano nunca é amado, nem ama: a amizade é um nome sagrado, é uma coisa santa; ela nunca se entrega senão entre pessoas de bem e só se deixa apanhar por mútua estima. Não pode haver amizade onde está a crueldade, onde está a deslealdade, onde está a injustiça; entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma companhia; eles não se entreamam, mas se entre-temem; não são amigos, mas cúmplices. Por isso, o tirano não é apenas o oposto do amigo, mas também aquele que destrói qualquer possibilidade de amizade. Ele é aquele que enxerga o outro apenas como uma ameaça, logo que precisa ser anulado e dominado. A trama de Toy Story 3 pode ser interpretada a partir dessa dinâmica. Não é necessário esmiuçar seus detalhes, mas apenas destacar que o motor da narrativa é a partida dos brinquedos de Andy, agora crescido e prestes a iniciar a faculdade. O fim da infância significa um momento de ruptura e de transformação. A pequena comunidade, estabelecida através das inúmeras brincadeiras com o garoto (e o sentido metafórico dessa brincadeira é importante, afinal ela é uma das manifestações mais visíveis do desejo), foi rompida. O destino dos brinquedos pode ser tanto a recriação dos antigos laços de amizade que os unia, mas agora em um novo local, com uma nova criança, ou simplesmente a separação e o rompimento definitivo. Por pura casualidade, todos permanecem juntos e acabam numa espécie de creche, repleta de crianças e de outros brinquedos. Num primeiro olhar, a separação parece extremamente positiva para todos (exceto Woody, o brinquedo caubói, que deveria seguir junto com Andy para a faculdade). A creche é uma espécie de paraíso, repleta de novidades e cheia de crianças dispostas a aproveitar ao máximo os tempos da infância. É lá que Woody e seus amigos topam com Lotso, o ursinho roxo que foi feito para abraçar (ou algo assim). Ele é uma espécie de liderança da “comunidade” de brinquedos, todos parecem respeitá-lo, afinal ele é o mais velho lá presente. A recepção aos novatos é calorosa, entretanto a realidade não tarda a se revelar. O urso, na realidade, não passa de um tirano injusto e autoritário. Incapaz de aceitar a separação de sua antiga dona, é possuído de um intenso ressentimento que lhe submete inteiramente. Todos que lhe cercam acabam contaminados por essa (im)potência triste. Ele se tornou um comandante que utiliza o terror e o medo para impor sua vontade. Seu poder vem da temida sala das crianças menores. Uma espécie de zona de exceção, na qual não há regras ou garantias, apenas a energia incontrolável das crianças ainda muito pequenas para se preocupar em conservar os brinquedos. Poucos agüentam muito tempo lá. A maior parte dos brinquedos acaba virando sucata em poucos dias. É o medo que inspira o desejo de servir, aqueles que obedecem a Lotso ganham privilégios, podem subir na hierarquia de comando. Podem também submeter aqueles que estão abaixo, mas principalmente se manter longe da sala do terror. Esse é o segredo de Lotso: alimentar essa pirâmide de obediência e mando, na qual aqueles que estão abaixo aspiram subir, mas para isso precisam se submeter cada vez mais aos desígnios do tirano. Enquanto a amizade dos brinquedos de Andy possibilitava a partilha de múltiplos desejos, criando um espaço comum de relações e afetos, a única coisa que aproxima os brinquedos na creche é o temor mútuo, eles apenas se entre-temem. É claro que essa existência, fundada numa (im)potência, pode desmoronar. Basta libertar os desejos dessa negatividade que represa suas potências (como diria Espinosa, um afeto não pode ser refreado nem anulado senão por um afeto contrário e mais forte do que o afeto a ser refreado), desfazendo os laços íntimos que unem o terror com a obediência. Nesse sentido, o tirano deixa de ser uma figura apenas da política (entendida aqui como macropolítica) e se desloca para um eixo muito mais microscópico. O gesto de Lotso é, sobretudo, um esforço de fusão de si próprio com o outro, anulando todo risco do encontro a dois. A relação com o outro é mediada apenas pelo desejo de dominação/submissão, ou seja, por um desejo fascista (o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora). É por essa razão que o vínculo entre o filme e o curta a ele integrado ganha tanto relevo. Diante da ameaça do tirano, a melhor recusa é aquela abertura radical para a existência do outro, tão bem expressa no abraço das duas criaturas do Dia e Noite.

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4 Comments to “Toy Story 3 de Lee Unkrich”

  1. renatocinema disse:

    Muito importante sua avaliação citando o curta-metragem…….Adorei Day & Night.

  2. babi disse:

    se eu estivesse com 'a trégua' do primo levi aqui, copiaria o trecho em que há um personagem que é praticamente isso. o livro se passa depois da libertação dos prisioneiros dos campos de concentração alemães e o tirano em questão não é hitler, ou um membro de partidos fascistas. é um homem comum, que exerce o poder não por inteligência ou capacidade, mas por mero amor ao poder; ele mesmo se noemou chefe. as pessoas o respeitam e os russos o toleram; afinal, ele cuida com cuidado de papéis e burocracias, coisa que ninguém se predispõe a fazer de bom grado.

  3. Leandro disse:

    Renato, o curta é muito bonito. Um dos melhores da Pixar. Um abraço.

    Leandro

  4. Leandro disse:

    Babi,

    Achei fantástico o trecho que você mencionou. Eu conheço muito superficialmente a obra do Primo Levi, mas agora fiquei bastante interessado em ler "A trégua". Você sabe que tem uma adaptação fílmica desse livro? Dizem que é interessante, exceto pelo final. Um grande abraço e muito obrigado pela excelente dica.

    Leandro

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