Trabalho Interno de Charles Ferguson

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Um tipo comum de documentário é aquele que transforma uma tese em imagens e enredo, utilizando o maior número de recursos retóricos e argumentativos para provar um ponto e convencer o espectador. O que sustenta esse tipo de filme é a crença na possibilidade de mobilizar as pessoas em prol de uma causa ou para alertar das necessidades de mudanças na realidade. A preocupação com o convencimento e com a ação, geralmente, é muito maior do que aquela dispensada à forma ou ao exercício fílimico propriamente dito. É muito mais fácil convencer alguém de algo usando uma linguagem simples, bem conhecida e padronizada, do que fazer o mesmo com inovações estéticas e com a experiência do estranhamento. Essa opção cinematográfica não é essencialmente ruim, há muitos filmes “tradicionais” e interessantes, lembro rapidamente do The Corporation ou de O Abraço Corporativo. Colocaria nessa lista até mesmo os primeiros filmes de Michael Moore, ainda que sua fórmula já tenha se mostrando bastante desinteressante nos últimos trabalhos. O grande problema é que um documentário de tese só se vale pela sua própria tese e quando ela se mostra furada, superficial ou pouco produtivo, o filme acaba perdendo qualquer valor. É justamente isso que ocorre com Trabalho Interno, do direto sueco Charles Ferguson. O filme trata de “explicar” a crise econômica de 2008 e provocar uma reflexão sobre os motivos políticos que tornaram possível tal situação. O melhor do filme é seu caráter didático, que consegue equacionar com clareza toda a intricada rede de negociações que tornou possível a criação de uma gigantesca bolha especulativa em torno de derivativos e empréstimos pessoais. Sem dúvida, é uma exposição simples e clara do funcionamento dos mercados e da lógica do capitalismo financeiro. Isso, porém, não sustenta o filme, é apenas um elemento utilizado para demonstrar a tese do diretor. Segundo o filme, a economia americana do pós-guerra era vigorosa e eficiente, capaz de garantir o bem-estar da população e controlar a especulação desenfreada. O governo tinha mecanismos para regular a economia e não existiam gigantescos conglomerados financeiros capazes de abalar o sistema (e o bem-estar da população). Por isso, a economia americana não enfrentou nenhuma (isso mesmo, nenhuma) crise até a década de 1980. As coisas só saíram do rumo quando o governo começou a ser conquistado pelos lobbistas e pela influência do mercado financeiro, dando início a uma liberalização da especulação financeira. Na década de 1980 essa política ainda era tímida, mas nas duas décadas seguintes a coisa saiu completamente do controle: o governo foi totalmente dominado pelos grandes especuladores (inclusive através do ingresso de vários desses especuladores em cargos centrais do governo americano), o que possibilitou a criação de uma legislação totalmente flexível e livre. O resultado: a especulação subverteu o sistema, as fraudes se tornaram comum e um pequeno grupo de indivíduos começou a se enriquecer às custas da sociedade americana. Os grandes vilões, segundo o filme, são estes indivíduos que esqueceram qualquer noção de bem-comum e adotaram estratégias predatórias de enriquecimento, que prejudicavam e colocavam em risco o funcionamento de suas próprias empresas, pois sabiam que o governo sempre viria socorrê-los. É como se o governo americano sempre tivesse funcionado como uma ferramenta de proteção social, capaz de controlar o espírito predatório e egoísta das pessoas através de uma rígida legislação financeira. Foi esse governo protetor que trouxe prosperidade e desenvolvimento social durante várias décadas. No entanto, essa instituição foi lentamente corrompida pela potência negativa do dinheiro e pelo desejo de enriquecimento rápido. O poder dos especuladores foi se entranhando na própria política, desfazendo os mecanismos de proteção social. Acontece, portanto, uma inversão, o governo se transformou no seu oposto, ao invés de garantir o bem-comum, ele se torna apenas mais um mecanismo para sugar e privatizar a coisa pública em favor de uma pequena casta de privilegiados. O dinheiro aparece como um tumor, como o motor da corrupção e decadência da sociedade. Diante de ideias simples, o filme chega a conclusões igualmente superficiais: para proteger a sociedade de novas crises é necessário reconstruir um governo forte e atuante, capaz de recuperar seu antigo sentido de proteção social e controlar os interesses particulares. A solução da crise atual acaba se tornando uma simples questão de voluntarismo político, um grupo de políticos bem intencionados e capazes de resistir ao poder do dinheiro e pronto, a especulação poderá ser recolocada nos eixos. A tese do filme resolve todos os problemas com oposições simples: o bem e o mal; a justiça e a corrupção; a regulação e a desregulação; o bem comum e os interesses predatórios, etc. O simplismo desses binômios permite uma fácil identificação do espectador, ele pode sair do cinema reconfortado, afinal não há maneira de se identificar com o lado negativo (por sinal, o pôster do filme resume bem essa forma de identificação, ele diz que if you´re not enraged by the end of the movie, you weren´t paying attention). Esse procedimento, porém, perde de vista qualquer tipo de reflexão mais sistemática ou estrutural, a crise se torna apenas uma questão moral, culpa de pessoas malignas e desalmadas. A crítica do filme não passa de uma oca reflexão, incapaz de equacionar adequadamente a complexa e tensa relação de poder que estrutura a política global, da qual a crise econômica é uma das manifestações mais agudas. Apesar disso, é uma reflexão sedutora e muito eloqüente, é muito fácil e agradável pensar a política em termos morais, não incomoda e nem obriga a pensar muito no assunto. Talvez por isso, o filme apareça como um dos mais fortes candidatos ao Oscar de Documentário deste ano.

 

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One Comment to “Trabalho Interno de Charles Ferguson”

  1. Miguel Pedo Meira disse:

    Considero estes abutres verdadeiros serial killer da pior espécie (reitores, assessores, consultores, etc). Como tal considero-os corruptos e corruptores e assim o seu único destino só pode ser a cadeira elétrica, cadeira esta que deve ser construída com os seus miseráveis bônus.

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