Travessias de Eduardo Souza Lima

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Tive a oportunidade de assistir o novo documentário de Eduardo Souza Lima, Travessias. Este acompanha a rotina de três alunos e de uma professora do Programa Travessias, o qual atende jovens e adultos com defasagem idade-série no estado de Pernambuco. Ainda que não esteja centrado diretamente no cotidiano do programa, privilegiando as vidas e narrativas desses quatro indivíduos, o filme toca num ponto importante para qualquer reflexão voltada para a compreensão da realidade educacional brasileira, qual seja, a grande dificuldade em combater a evasão e o atraso escolar. Vale citar alguns dados: 97,6% das crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos estão oficialmente matriculados em unidades escolares. Porém, cerca de 28% desses alunos não cursam efetivamente as aulas, seja faltas constantes, seja pela pura desistência. A esse índice de abandono e desistência é necessário juntar outro fato: o também elevado número de reprovações (muitas vezes provocada pelas faltas, pois mesmo no sistema de progressão continuada pode acontecer a reprovação por ausências). Assim, daquele universo quase universal de educação resta o seguinte e impressionante dado: de cada 100 crianças que ingressam no ambiente escolar brasileiro, apenas 36 atingem o terceiro ano do ensino médio. O caso pernambucano ilustra muito bem essa situação: segundo a própria Secretaria de Educação de Pernambuco, cerca de 70% dos alunos matriculados no ensino médio estadual encontram-se em defasagem idade-série. Nesse sentido, o Programa Travessias, bem como diversos outros programas similares em outras regiões do Brasil, é uma tentativa de remediar ou contornar essa situação. O trabalho de Souza Lima ajuda a refletir e compreender com mais proximidade esta questão. A partir das falas de alguns indivíduos que poderiam estar naquelas estatísticas, descortina-se algumas das dificuldades em continuar estudando, dos motivos que obrigaram ao abandono, das aspirações e desejos que são depositados na conclusão dos estudos. Há um personagem especialmente interessante: é o jovem Ewerthon. Após ter sido reprovado diversas vezes, decidiu tentar a conclusão do ensino médio ingressando no Programa Travessias. Nas suas primeiras falas notava-se a empolgação e o desejo de logo concluir os estudos, com o que poderia iniciar uma faculdade de engenharia ou conseguir um emprego melhor. Porém, ao longo do filme ele relata que, com muito custo, conseguiu uma nova oportunidade de emprego: trabalhar num McDonalds. Isso lhe obriga a mudar de turno no curso, passa para o noturno, além de tornar sua rotina cada vez mais cansativa. Em seguida, descobrimos que ele novamente desistiu dos estudos e abandonou o curso. Ainda assim, Ewerthon continua alimentando o desejo de concluir seus estudos e, quem sabe, conseguir melhores oportunidades de vida. É essa dimensão – a escola como o depositório de aspirações e desejos, como uma longa travessia que vencida possibilitará o alcance de um novo lugar social – que perpassa a narrativa do documentário. Entretanto, como vemos na situação do próprio Ewerthon, essa travessia frequentemente se transforma num desafio quase insuperável, ou pior, incapaz de levar a novos lugares (sociais). O que acontece, muitas vezes, é que as expectativas depositadas no espaço escolar são muito maiores do que as possibilidades que este espaço dispõe para alcançá-las. Já escrevi antes sobre o quanto é pernicioso esta crença tão nossa de que a escola é o grande instrumento de transformação social. Por isso é mais do que necessário começar a repensar o significado dessas travessias escolares, e quem sabe com isso enfrentar, em outros termos, o problema da evasão e da desistência.

 

 

Para mais informações sobre o trabalho diretor, inclusive com um média institucional com a trajetória de um dos personagens do filme, Cristiano, veja o link: http://www.vimeo.com/eduardosouzalima

 

 

Referência dos dados:

http://www.nacaocultural.pe.gov.br/secretaria-de-educacao-lanca-caderno-de-cultura-para-estudantes-do-programa-travessia

http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/como-manter-todos-escola-evaso-abandono-gestao-escolar-556408.shtml?page=0

http://revistaescola.abril.uol.com.br/politicas-publicas/planejamento-e-financiamento/nenhum-menos-excecao-467158.shtml

 

 

Crédito da foto: Rose Lima

 

 

PS: agradeço Carlos Alberto Mattos pelo contato com o diretor do filme, e o próprio diretor Eduardo Souza Lima, o qual graciosamente me enviou uma cópia de seu trabalho.

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