O novo trabalho da Companhia Sutil, Trilhas Sonoras de Amor Perdidas, me emocionou bastante. Apesar de muito extensa, a peça tem cerca de 3 horas de duração, a trama é relativamente simples. O protagonista, interpretado pelo excelente Guilherme Weber, está no meio de mais uma noite insone e começa a rememorar a história de seu relacionamento com Soninho (Natália Lage), o grande amor de sua vida. De partida, o espectador descobre que eles não estão mais juntos, porém o que parecia ser (mais uma) a narrativa de um relacionamento falido, aos poucos revela algo muito mais trágico. O que interrompeu o breve relacionamento do casal foi um súbito mal-estar, que provocou a morte da moça. Basicamente é disso que trata a peça, da experiência de um relacionamento atravessado pela morte, da dificuldade em seguir adiante, do rememoramento daquilo que passou, enfim do luto, suas dores e sua superação.

No entanto, a peça trata também de música, da música como um importante dispositivo de subjetivação. É isso que me interessa aqui. Desde o início, o relacionamento dos dois estava sustentado por uma paixão intensa pela música. E num tempo anterior ao cd e o mp3, este amor só encontrava materialidade nos vinis e, principalmente, nas pequenas fitas cassetes. Era, portanto, outra época, uma bem diferente dessa nossa época da hiperreprodutibilidade técnica. Para a música circular, as pessoas passavam horas elaborando suas fitas, pequenas amostras do gosto pessoal de cada um. Foi assim que o protagonista iniciou a paquera com Soninho. Ele lhe prometeu a gravação de uma fita, ela aceitou. E assim, tudo na vida deles sempre girou em torno de músicas, gravações e composições de pequenas listas de canções. Cada ocasião, cada momento, cada circunstância, podia ser expresso por tal e tal música, fita ou gravação. Essa pequena arte de seleção e ordenação não era apenas uma banalidade, mas o momento de expressão de uma espécie de verdade particular de cada um.

Pode-se dizer que a as fitas ocupavam uma posição análoga ao diário e as cartas, todos os quais serviram de suporte material para o processo de constituição da subjetividade na modernidade. Era por meio desses instrumentos que acontecia aquilo que fora chamado de escrita de si. Ainda que pareça um contrasenso dizer que as fitas-cassete funcionavam como um importante instrumento de escritura da subjetividade, há fortes razões para pensar assim. Da mesma forma que muitos escreviam cuidadosamente seus diários, nos quais o estilo do texto é a marca de um autor individual e singular, o processo de formação do gosto musical é acompanhado por uma espécie de lenta composição e invenção dessas marcas de singularidade. São estas, como sempre gostamos de pensar, que formam nosso lugar particular na ordem dos seres. Sou único porque vivi experiências únicas. A música se torna uma espécie de filtro, ou melhor, é a partir das músicas que afirmo com mais força o que sou, mas também é a música que compõe aquilo que sou.

Este processo, entretanto, precisa de alguma forma de sedimentação ou fixação, o qual só é possível no momento em que posso formar uma seleção das minhas músicas. É nisso que entravam as fitas, elas eram uma forma de recortar na universalidade da experiência musical aquilo que era só meu. É nesse sentido que, no momento em que se grava uma fita, pode-se afirmar também a verdade de um autor. É ele quem a constitui, que reorganizou uma pilha de gravações e as dotou de um novo sentido, inexistente na gravação original. A fita de amor, o motor da narrativa cênica, é a forma mais clara dessa experiência. Escolher um punhado de músicas e enxergar nelas a pura expressão dos meus sentimentos é a pura expressão desse movimento de constituição da minha subjetividade. Curiosamente, isso lembra um pouco as antigas hypomenatas [1], espécie de registros diários da antiguidade. Como se sabe, o sentido profundo dessa forma de escrita era compilar trechos importantes dos livros lidos. Na visão dos antigos, a leitura por ela mesma não passava de uma experiência vazia, a qual só ganhava sentido quando uma personalidade assumisse o papel organizador, selecionando e compilando, marcando aquilo que é interessante, aquilo que diz algo sobre si próprio. O mesmo ocorre com as fitas, elas tornam-se as modernas expressões dessa prática compilatória.

Além disso, as fitas amorosas (mas não apenas) desempenham um papel muito parecido com aquele das cartas, na medida em que servem de veículo para transmitir a própria interioridade para outrem. Não é necessário se alongar nisso, basta lembrar que por muito tempo, as cartas ocuparam uma posição sem igual na comunicação da vida interior (e também da vida política, ao ponto de alguns historiadores denominarem os impérios coloniais do Antigo Regime de impérios de papel, em alusão à constante troca de correspondência administrativa). Era por meio delas que amizades se estruturavam, paixões eram alimentadas e a distância era encurtada. Por isso, era necessário um imenso cuidado com essa forma de escrita. Não era qualquer texto, nem qualquer papel, mas algo íntimo e intenso, próprio para a função comunicativa que desempenhava.

De forma análoga, a fita de amor exigia uma escolha laboriosa, não pode ser qualquer canção, é preciso trabalhar a lista de maneira cautelosa, depois selecionar a ordem, como que compondo um universo particular, para só então enviá-la para o indivíduo amado. E assim, o extenso espaço de uma carta se transforma na curta duração de algumas poucas músicas. As músicas, supostamente, deveriam transmitir o estado de espírito e a mensagem particular, podendo tanto provocar o mais intenso amor, quanto um total desentendimento, afinal sempre há o risco do gosto musical se mostrar incompatível. Ademais, não custa lembrar a anedota relatada quase no fim da peça, da moça que enviava a mesma fita para todos os seus namorados. Nada mais inautêntico ou falso do que alguém que não investe toda sua particularidade na composição das fitas amorosas.

Há, porém, que se ponderar a historicidade mesma desse dispositivo. A possibilidade técnica de gravação de fitas é mais ou menos recente. Antes dela, não era possível operar essa ascese interior voltada para a produção de uma seleção particular de composições. Tanto é que a possibilidade mesma da escuta musical não era algo situado no plano individual, mas sim da coletividade. Escutava-se música no meio de outros, seja no teatro, seja na igreja, ou ainda num concerto aristocrático. A relação com a música era muito mais da ordem contemplativa, num sentido muito preciso, qual seja, quando a própria subjetividade encontrava-se momentaneamente suspensa diante da grandiosidade da composição.

A reprodutibilidade técnica, por conseguinte, é um momento importante de descontinuidade no jogo estético da música diante do sujeito. Finalmente, pode-se operar uma cisão entre o sujeito e a comunidade, afinal a música não é mais necessariamente algo da ordem comum, mas aquilo que fazemos no interior de nossas casas (evidentemente que os espetáculos coletivos, os shows, não deixaram de existir, mas assumiram um papel segundo – primeiro assimilo a música no meu interior, em seguida assisto a música num espaço público). As possibilidades da reprodução crescem e se multiplicam. Até um certo momento, não era possível reconstituir as gravações e reordená-las do modo que mais se adequasse ao interior de cada um. Isso, porém, é rapidamente ultrapassado com a popularização das fitas-cassete.

A música que passara da contemplação para a interiorização sofre uma nova transformação, tornando-se alvo de uma espécie de bricolagem subjetiva. Ainda assim, havia algo de raro e imperfeito, especialmente entre os jovens, nesse processo. Não era possível ter uma infinidade de vinis e nem sempre as gravações eram da melhor qualidade, não faltavam ruídos e deficiência no som. Nesse sentido, a música precisava ser aproveitada com intensidade, um novo vinil era motivo de jubilo e devoção intensa. Ouvir, reouvir, ouvir novamente. Repetir até a exaustão aquela faixa mágica e perfeita.

Essa lenta deglutição sonora, efeito de uma indústria cultural que se sustentava no manejo das possibilidades técnicas de reprodução, acabava tendo um efeito importante no processo de sedimentação de uma dada subjetividade. Basta pensar, que garoto de 15 anos conseguia comprar vários discos num único mês em meados da década de 60, 70 ou 80? Havia, portanto, um ritmo de circulação lento e restrito, que foi se alargando aos poucos. Esse ritmo deixava a música na condição de um objeto de intenso investimento afetivo, já que cada disco poderia esconder uma faixa preciosa, justamente aquela que vai bater forte no meu íntimo. Isso dava ainda mais sentido e importância às fitas gravadas. Havia uma dupla abertura no ato de gravação de uma fita: ela transmitia algo de mim mesmo, mas também algo que não “existia” em “abundância”.

No entanto, qualquer leitor que, como eu, começou seu amadurecimento musical já no finzinho dos anos 90 e início da década seguinte, sabe que algo totalmente novo surgiu. Ainda que antes já tivéssemos a invenção dos cds, é apenas com o advento de duas inovações técnicas – o mp3 e a internet – que aconteceu uma radical modificação no ritmo de circulação musical. A raridade se converteu em abundância, a preciosidade em banalização. Se antes um jovem adolescente precisava juntar dinheiro do mês inteiro pra comprar um ou dois discos, agora é fácil conseguir uma dezena deles em poucos minutos, basta uma boa conexão com a internet e um pouco de conhecimento de navegação. As músicas também não precisam mais da unidade do disco, afinal cada um pode pegar aquela que gosta e descartar todas as demais. Há um verdadeiro excesso e quem pretende se manter informado de todas as novidades musicais simplesmente não pode se dar o luxo de uma lenta deglutição sonora.

Isso não é um grande problema, afinal agora também existem tocadores de mp3, aparelhos que podem armazenar milhares e milhares de músicas. Basta deixar no aleatório e ir descobrindo músicas que nem imaginava que tinha adquirido. Ainda que existam as playlists, a relação com a música é nova e só num plano inexato podem ser enquadradas na mesma lógica das antigas fitas gravadas. Uma nova lógica, evidentemente, implica também em novas práticas de subjetivação. Ainda é difícil compreender bem o sentido disso, afinal as primeiras gerações que cresceram junto com a mp3, como eu próprio, estão apenas chegando à idade adulta. Porém, basta assinalar duas coisas. Em primeiro lugar, há uma espécie de descartabilidade, a música não precisa ser admirada como uma jóia rara, mas sim como algo que precisa ser apressadamente assimilado. A lenta ascese é substituída por um acelerado deslizamento em sonoridades diversas. Em segundo lugar, a circulação também não é mais da ordem puramente individual, eu vou te dar uma fita. Agora é possível oferecer aos milhares, ou milhões, aquela playlist que produzi ou o acervo desorganizado que compilei. É possível até imaginar uma correlação entre esses dois pontos e a constituição de sujeitos líquidos no mundo contemporâneo.

Enfim, mas o que interessa, depois dessa longa digressão, é retornar ao tema da peça. A rememoração do relacionamento encerrado, recortado pela morte trágica, pode ser visto também num sentido metafórico. Nesse caso, a peça seria uma rememoração de um tempo que já não existe mais. O protagonista se torna o porta-voz daqueles que cresceram e se formaram junto com o vinil e a fita-cassete. Que aprenderam a entender e explicar o mundo e a si próprios por meio de canções e gravações. A dor do personagem é a dor de abandonar lentamente esse mundo, vivendo noutro registro. Existe uma tristeza nisso, porém é algo que nunca se converte num ressentimento. Ao contrário. O protagonista é aquele se confronta com a morte, mas decide continuar e viver. Isso converte o espetáculo numa espécie de elegia do tempo ido, e talvez seja isso que emocione tanto. Como diz ele, o mundo segue vivendo.

[1] As hypomenatas foram tema de um texto do Foucault, A escrita de si. A melhor de todas expressões dessa prática é o lindo livro de Sêneca, Cartas as Lucílio. Esta obra é imensa e várias vezes foram publicados fragmentos em português, com títulos um pouco esquisitos.

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2 Comments to “Trilhas Sonoras de Amor Perdidas (Companhia Sutil)”

  1. mirella disse:

    como ele mesmo diz ao final da peça, impossível ignorar a paixão. é esse sentimento apaixonado pela música que nunca vai morrer. mudam os modos de se relacionar, mas sempre vai ser um desejo forte ansiando pra ser realizado.

  2. Renata disse:

    Por muito tempo no texto, o que é substâncial pelo seu tamanho, não reconheci o saudacismo presente e que não vejo no seu discurso atual, talvez porque mesmo o tempo do texto já é outro.
    Mesmo nesse tempo de milhares de música as pessoas ainda fazem sua seleção particular e as dedicam a pessoa amada, nem que a resposta do outro seja a de “curtir” no face.
    Outro ponto, meu caro, é que recebi as tais das fitas e como mais jovem q vc, não se exclua de uma geração e se entregue a outra, para sentir falta da primeira q é a sua.

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