Tropa de Elite 2 de José Padilha

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Tropa de Elite 2 é um filme que permite múltiplas leituras. É possível enxergar o filme como a mais bem acabada manifestação cinematográfica de uma tese muito disseminada em tempos recentes, qual seja, a compreensão da política como um fenômeno essencialmente moral. Esta tese funciona a partir de um nexo explicativo: a corrupção como o grande cancro da sociedade brasileira. Tudo que está errado no Brasil é culpa da falta de escrúpulos e da ganância solidamente disseminados pelo tecido social, partindo de seu topo (os políticos), esparramando-se numa espiral descendente até o rés do chão. Nesta perspectiva, a possibilidade de redenção é resultado do mais simples voluntarismo: precisamos de pessoas integras e capazes de se afastar da sujeira da corrupção, o que por si só possibilitará a consolidação de uma sociedade mais justa e igualitária. Na falta dessas pessoas justas, o Brasil continuará reproduzindo sua catástrofe sem fim. É fácil perceber como esta tese funciona a partir do filme de José Padilha. A trama se passa 15 anos depois do primeiro filme, agora o Capitão Nascimento não é mais um membro do Bope, pois se tornou Coronel e Sub-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. No seu novo papel, ele pretende acabar de uma vez por todas com aquilo que sustenta (na sua opinião) a violência no Rio de Janeiro: o tráfico de drogas, liderando uma grande ofensiva, com apoio do governo do estado, de políticos e da mídia, contra o crime organizado. Sua postura incorruptível e sua obstinação, apoiados pela violência eficaz de sua equipe, conseguem resultados fabulosos, capazes de desbaratar a influência do tráfico nas favelas cariocas. A esperança de Nascimento era que sua ofensiva fosse suficiente para desarticular os interesses escusos criados entre as autoridades policias e os traficantes, resolvendo também o problema de corrupção do Estado carioca. Entretanto, rapidamente esta esperança se esvai. A corrupção sistêmica encontra outro espaço de manifestação, através das milícias que tomam conta do território agora livre dos traficantes. Assim, o Coronel Nascimento encarna um sentido trágico: todas as suas ações só conseguem piorar a situação, aumentando a violência urbana e a corrupção. O filme pode ser resumido na tomada de consciência da trágica condição do homem de bem numa sociedade imunda. Tudo e todos estão envolvidos, de alguma maneira, naquela realidade brutal e imoral e Nascimento descobre, da pior maneira possível, os laços que unem as milícias urbanas com os políticos: a violência é a melhor fábrica de votos. Quanto mais as milícias avançam, mais os lucros e os votos são revertidos àqueles que a apóiam. É contra essa íntima afinidade entre política, corrupção e violência que Nascimento vai erguer toda sua força. Ele toma consciência de que sua luta não é mais contra o crime organizado. Agora sua luta é contra o sistema e toda estrutura que o sustenta. E quase como um Quixote moderno, Nascimento tenta subverter o sistema. É claro que ele não consegue. Pode até destruir uma ou outra peça, mas no final tudo se reorganiza e o sistema segue funcionando. Nessa perspectiva, a possibilidade real de uma vitória reside num movimento duplo: de um lado, a vitória dos homens de bem, uma tomada de consciência geral que parte do lado da sociedade civil, capaz de transformar aquela política podre em algo purificado; do outro, a defesa irrestrita de uma ação justiceira, capaz de desatar o nó da política através da força e da violência, contra todos os estratos corrompidos da sociedade. A figura trágica de Nascimento, portanto, encarna o espírito de transformação: é necessário a formação de uma comunidade de sujeitos que assumam sua moralidade para superar o problema estrutural do Brasil. Essa tomada de consciência funciona por meio da catarse da violência, em especial na cena apoteótica, quando Nascimento espanca o corrupto com toda brutalidade que marcou sua luta anterior contra o mundo do crime. Não é difícil perceber como essa moralização da política corteja perigosamente com um discurso fascista, que serve apenas para reproduzir um maquinário de violência cada vez mais eficaz e totalizante. É a partir disso, que enxergo uma possibilidade de leitura bastante diferente do filme. Tropa de Elite ajuda sim a refletir sobre o problema estrutural da política contemporânea, mas este problema não tem nada a ver com corrupção e nem com moralismo. Na realidade, o que está em jogo é a conversão da política num estado de exceção permanente, que resulta em dispositivos que transformam todos os viventes em vidas nuas, ou seja, existências despojadas de todo estatuto político (e com isso desprovidas de qualquer direito ou garantia), mediadas apenas pela violência dos dispositivos do poder soberano. A figura por excelência dessa vida nua sempre foi o refugiado, aquele indivíduo que perdeu suas garantias por ter se tornado um expatriado, sem os direitos fundamentais do homem (todos ancorados na noção de cidadania). No mundo contemporâneo, porém, a condição do refugiado é muito mais larga, se confundindo com o criminoso ou, mais recentemente, com o terrorista. Estes indivíduos, existindo a margem da vida política, são absolutamente matáveis, afinal existem enquanto “vidas que não merecem ser vividas”. E o papel dos homens de bem, como Nascimento, é justamente o de estabelecer a mediação destes indivíduos com o poder soberano. As operações do Bope são, sobretudo, operações contra essas vidas sem valor, que podem ser exterminadas a qualquer momento. A cena inicial do filme, quando os homens comandados por Nascimento invadem o presídio para conter uma rebelião, exprime isso com rara eloqüência. Isso tudo não é muita novidade, o que é novo e merece ser destacado é a maneira como o filme desvela a ampliação ilimitada dessas vidas nuas. Estes não estão mais localizados apenas na base da sociedade, nos grupos mais desfavorecidos, mas na sociedade em seu conjunto. A violência produzida nas margens repercute no centro, formando uma espiral ascendente que pode colocar qualquer um na condição de vida matável. É na medida em que a ação governamental faz uso de suas prerrogativas excepcionais, através da ação do Bope de combate ao tráfico ao longo da primeira metade do filme, que novos micropoderes podem brotar, de maneira cada vez mais difusa, como as milícias e todo o suporte policial que a sustenta. Esta difusão cria uma ordem descerebrada, na qual a violência segue atrás de alvos cada vez mais indistintos. Nesse sentido, a luta contra o sistema é propriamente a validação e a continuidade desse mesmo sistema, pois é através dos mecanismos políticos que se produzem os dispositivos que possibilitam tudo isso. Afinal, a operação da política contemporânea funciona numa esfera global a partir da articulação do discurso midiático, dos interesses eleitoreiros e da ação do poder soberano. Dessa perspectiva, fica evidente que o problema central não passa nem perto de um combate à corrupção ou de uma moralização da política. Na realidade, o que precisa ser pensado é a maneira como a política, na contemporaneidade, se confunde cada vez mais com o funcionamento desse maquinário de violência e guerra, que reduz a sociedade a um mero corpo biopolítico à mercê da soberania governamental. Como explica Agamben, o estado de exceção, hoje, atingiu exatamente seu máximo desdobramento planetário. O aspecto normativo do direito pode ser, assim, impunemente eliminado e contestado por uma violência governamental que produz um estado de exceção permanente, pretendendo, porém, ainda aplicar o direitoNão se trata, naturalmente, de remeter o estado de exceção a seus limites temporal e espacialmente definidos para reafirmar o primado de uma norma e de direitos que, em última instância, têm nele o próprio fundamento. O retorno do estado de exceção efetivo em que vivemos ao estado de direito não é possível, pois o que está em questão agora são os próprios conceitos de ‘estado’ e de ‘direito’.

PS: Vejo uma afinidade temática entre Tropa de Elite 2 e o filme italiano Gomorra. Ambos ajudam a refletir sobre o estado de exceção que configura a política contemporânea. Analisar conjuntamente as duas obras ajuda a refletir sobre o caráter global e estruturante dessa condição. Para quem estiver interessado, escrevi sobre o Gomorra aqui.

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