Tudo pelo poder de George Clooney

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Tudo pelo poder constrói uma tese muito parecida com aquilo que identifiquei nos dois filmes sobre a política de Eric Rohmer (A inglesa e o duque e O agente triplo). É claro que do ponto de vista estético, é até covardia comparar o trabalho de Clooney com os filmes de um dos maiores diretores franceses. Basta dizer que toda a sutileza e o refinamento narrativos de Rohmer estão ausentes neste filme americano. Ainda assim, do ponto de vista temático as coisas estão bem próximas (Essa proximidade, porém, não significa igualdade. Na obra rohmeriana existe um substrato ético que me parece inexiste nesse caso). No seu filme, Clooney representa um político que se lançou na corrida presidencial americana. O problema é que, primeiro, ele precisa vencer as prévias do Partido Democrata e a situação está pendendo cada vez mais para o candidato adversário. O foco narrativo não se deposita tanto sobre Clooney, mas sim sobre sua equipe de campanha. Esta é liderada por um jovem e talentoso especialista em mídias, Stephen Meyers, e num já bastante experiente estrategista, Paul Zara. A missão dos dois é reverter o quadro negativo e superar o outro candidato nas prévias. O motor da trama é o processo de aprendizagem do jovem Meyers das regras particulares do mundo político. Seu idealismo inicial, quando ele afirmava categoricamente que faria tudo para vencer desde que acreditasse nas propostas de quem ele apóia, rapidamente se perde diante das adversidades que surgem diante dele. O que ele aprende é que na política vale qualquer estratégia para alcançar e manter o controle sobre o poder. Nesse mundo não há fidelidades, amizades ou convicções, existe apenas estratégias e manobras para derrubar as ameaças e fortalecer suas posições. E até mesmo a morte pode ser utilizada como uma arma contra os adversários. Este aprendizado se transforma num exercício de cinismo, afinal Stephen não apenas não desiste da política, mas passa a utilizar as mesmas armas com naturalidade e facilidade. Do idealismo ao pragmatismo, a passagem é súbita e eficaz. A ideia proposta no filme é muito simples, aquele que entra na política precisa abraçar suas regras e aceitar o seu jogo. Diga-se de passagem, o filme abusa fartamente de recursos de luz e sombra para evidenciar essa dimensão negativa da política. De um lado, a imagem pública do político – no meio dos debates e comícios – iluminada e resplandecente. De outro, o lado obscuro – as maquinações e as estratégias – sempre em ambientes escuros, cheios de sombras. E no final, a mensagem é muito simples: a vitória depende muito mais desse lado obscuro com seus jogos de sombras do que na iluminação do debate político e democrático. Percebe-se, portanto, como a tese não traz grandes novidades e nem mesmo um apuro intelectual mais cuidadoso. Na verdade, a coisa é bem simples e quase panfletária. O que se celebra no filme é uma espécie de cinismo, que até poderia abrir caminho para reflexões éticas ou políticas mais bem elaboradas. Poderia, por exemplo, anunciar uma problematização mais intensa da própria categoria do político na contemporaneidade. Ou ainda refletir sobre o efetivo alcance dos mecanismos democráticos dessa que é considerada por alguns a grande democracia do mundo. Mas não é nada disso que encontramos. A mensagem do filme é muito mais simples. Diante da sujeira na política, cria-se uma indiferenciação tremenda. Todos os políticos são iguais e cabe aos indivíduos apenas se conformarem com essa situação. O jogo sujo é o jogo daqueles que abraçam a política, cinicamente o eleitor deve apenas permitir que eles continuem jogando. Nem mesmo um imperativo pragmático resiste nesse universo. Não existe uma política dos “fins justificam os meios” aqui. É como se restasse apenas os meios, a vitória e a manutenção do poder.

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