Um lugar qualquer (Somewhere) de Sofia Coppola

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O novo filme de Sofia Coppola, Um lugar qualquer, forma uma espécie de díptico com Encontros e Desencontros. O que une as duas obras é uma preocupação comum, qual seja, refletir sobre a sociabilidade contemporânea. Como escrevi antes, a diretora retrata as relações humanas a partir de uma espécie de fissura, um espaço quase instransponível entre o eu e o outro, que resulta num agudo sentimento de solidão e incompreensão. Este fato marca e determina as ações de seus personagens, sempre figuras angustiadas e um tanto perdidas. No primeiro filme, esta existência solitária pôde ser superada, ainda que momentaneamente, através do encontro fortuito, o bom encontro, dos dois protagonistas. É muito importante perceber como este encontro está localizado justamente na ordem dos acontecimentos, aquilo que por sua intensidade e singularidade consegue romper a normalidade e a segurança da rotina. É possível, portanto, que este lance quase miraculoso não se realize jamais. Assim, pode-se dizer que este segundo filme tente refletir sobre isto, que existência resta quando a rotina (e consequentemente, uma existência solitária) prevalece? O protagonista é Johnny Marco, um grande astro de Hollywood. Ele vive numa espécie de hotel luxuoso, dirige um carro caríssimo, transa com todas as mulheres, enfim vive na máxima bonança que o sucesso pode garantir. Só que essa bonança não proporciona grandes alegrias para Marco. Na realidade, sua vida é marcada por uma espécie de tédio angustiante. Seus muitos “prazeres” lhe empolgam cada vez menos. Nada expressa melhor esse desgosto do que quando ele pega no sono diante da exibição de duas dançarinas de pole-dance ou no meio do sexo com uma de suas inúmeras amantes. Esse tédio existencial é acompanhado pela quase inexistência de diálogos. Johnny é um personagem que quase não conversa (de fato) com ninguém. Troca uma palavra aqui outra ali, mas a coisa simplesmente não se sustenta. Sua relação com o mundo é quase autista, não há trocas, nem compartilhamento. No final das contas, é como se Marco vivesse continuamente num estado de suspensão: mora indefinidamente num hotel; realiza tudo de maneira mecânica e sem disposição; nada lhe empolga; nada lhe acontece; não há nenhum tipo de envolvimento afetivo. Nesse sentido, a grande metáfora de sua vida é o movimento circular do carro que abre o filme. Sua vida é uma sucessão de não-acontecimentos, de vazios que não provocam nada. Por isso, Johnny é ocupa uma posição análoga à de Bob Harris (o personagem interpretado por Bill Murray em Encontros e Desencontros). A diferença é que este escapa dessa existência solitária e circular na medida em que trava contato com Charlotte (a personagem de Scarlett Johansson). No caso de Marco, porém, as coisas são muito mais complicadas. É apenas diante da sua filha que ele toma consciência do vazio que sua vida se tornara. Se sua vida funcionava numa constante reprodução mecânica de afetos e relações, a criança sinaliza para uma direção diferente. Os dois juntos conseguem criar algum espaço de compartilhamento, de trocas afetivas. Isto resulta em cenas belíssimas, como aquela em que ambos estão na piscina brincando juntos, talvez a cena mais fantástica do filme. A intensidade dessa experiência coloca Johnny num dilema: continuar na solidão vazia (mas estável) de sua existência, ou seguir adiante. O filme encerra recuperando a metáfora do carro, mas agora n’outro sentido. Ele decide abandonar aquele estado de suspensão: deixa o hotel e segue em busca de algo, de algum acontecimento que possa, enfim, restituí-lo ao convívio do mundo.

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4 Comments to “Um lugar qualquer (Somewhere) de Sofia Coppola”

  1. Beauvoiriana disse:

    Só posso dizer que gostei ainda mais do que de ‘Encontros e Desencontros’. Não acrescenta nada, mas é tudo que consegui formular rs.

  2. Essa coisa que você diz do estado de suspensão é bem interessante no filme, Leandro. Lembro que li alguma entrevista da Sofia em que ela fala como o fato de alguém morar em um hotel revela justamente esse estado de inadequação. Aquele não é o ambiente dele, não é morada fixa, ele não vai ficar ali pra sempre. É como estar suspenso. Mas para o Johnny essa suspensão é ainda mais forte pela apatia que a vida dele tomou. A vida dele, daquele jeito, não tem mais sentido.

    A ideia do carro no início e no final do filme são sacadas narrativas muito legais também, sem falar que o final dialoga muito bem com o final de Encontros e Desencontros em que o protagonista resolve quebrar esse movimento “circular” de tédio, embora não sabemos de que forma. O que importa é a predisposição dele para tanto. Muito bom.

    Ótimo também seu blog, Leandro. Princiaplemnte pelo bom gosto dos filmes comentados. Abraços!

    • Leandro disse:

      Rafael, fico feliz que tenha gostado do texto. É muito bacana a forma como a Sofia trabalhou essa ideia de suspensão e de acontecimento. É como se a vida só pudesse voltar ao movimento com algo que tirasse ela de sua própria normalidade ou rotina. É a saída desse movimento circular que tanto marca o tédio do protagonista. Bem, sinta-se a vontade para voltar e comentar os textos e os filmes que trato aqui. Um abraço. Leandro

  3. [...] tão diversos quanto vazios. No entanto, entre tudo o que li, é às ideias de cotidiano e de tédio, de aparência e de superficialidade que as críticas do filme remetem a figura do protagonista, [...]

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