Utopia e Barbárie de Silvio Tendler

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O diretor de Utopia e Barbárie, Silvio Tendler, define sua obra como uma espécie de road movie histórico. Isso porque ele busca recuperar a grande História, aquela dos historiadores e seus documentos, a partir de suas memórias, andanças e aventuras. Essa proposta é bastante interessante e pode resultar numa reflexão bastante fecunda, problematizando as relações entre memória e história e as articulações das narrativas biográficas com as grandes narrativas. Porém, não é exatamente isso que acontece, especialmente pelo uso excessivo dos instrumentos próprios aos discursos historiográficos (imagens de arquivo, depoimentos de testemunhas que participaram dos grandes eventos, documentação objetiva, etc.), mas também por alguns recursos que ocultavam a carga subjetiva da narrativa (a utilização de três narradores diferentes para dar voz ao próprio diretor). Com efeito, acontece uma espécie de simulação, a qual serve de suplemento de veracidade aquilo que está sendo exibido no filme, como se o discurso subjetivo por si só não tivesse a força necessária para a discussão que está sendo trabalhada no filme. Ainda assim, apesar dessa renuncia em seguir um caminho de radical desconstrução do valor objetivo das grandes narrativas históricas, o filme toca num tema bastante interessante: a íntima relação entre as utopias e as barbáries do século XX. Através de uma grande seqüência de acontecimentos, tanto internacionais, quanto brasileiros, o documentário vai costurando uma narrativa que funciona a partir da polarização entre ideais libertários e práticas bárbaras. Os ideais libertários se manifestam na luta contra o colonialismo, na resistência contra a opressão do mundo capitalista, nas lutas dos estudantes de 1968, no esforço pela transformação das Américas numa região mais justa, ou mesmo no desejo de construção de uma sociedade verdadeiramente socialista. Porém, todas essas lutas acabam enfrentando uma resistência comum, uma força de manutenção da ordem existente: as tropas que lutam contra os movimentos de emancipação dos países africanos ou asiáticos, os americanos lutando contra o surgimento de novos regimes socialistas, as autoridades tradicionais que tentam barrar os movimentos estudantis, os ditadores e generais tomando conta da América, ou mesmo os partidos stalinistas e maoístas que controlam os regimes socialistas. Até ai, nada de novo. O que interessa mesmo são os (poucos) momentos no qual a narrativa aproxima essas duas noções, muitas vezes vistas como antagônicas. É nisso que entra a idéia de utopia. O filme fala muito em utopias, em projetos utópicos, na esperança de transformação da sociedade, na luta de homens e mulheres para a conversão dessas utopias em realidades. É esse desejo de projetar um futuro diferente, de construir uma nova sociedade, que serve de ponte entre as idéias libertárias e as práticas de barbárie. A narrativa da obra aponta, com grande eloqüência, para a pequena separação que existe entre a idealização de um futuro perfeito e a ação violenta. A utopia e a barbárie são dois elementos que funcionam na mesma dinâmica: no deslocamento do espaço político para um tempo perfeito, distante e deslocado do presente ele mesmo. É como se o campo do político não pudesse se fundamentar fora de uma narrativa transcendental que organiza e dota de sentido tudo que acontece. A mais importante conseqüência do pensamento utópico, repleto de esperanças e de idealizações, é o esvaziamento do presente, ele se transforma numa pálida existência que precisa ser superada, destruída ou subvertida em prol de um tempo novo, esse sim dotado de um conteúdo pleno. É esse lançar-se vazio ao futuro que serve de justificativa para qualquer ação, para o desmedido exercício do poder, para a materialização de toda barbárie. E o que não faltou no século XX foi a conversão de projetos políticos em utópicas barbáries. Coisa que não foi nem de longe um privilégio da esquerda. Não faltaram utopias liberais (o maior exemplo é o tão famoso fim da história e seu consenso neoliberal, a mais perfeita manifestação desse esvaziamento do presente que é própria do pensamento utópico), utopias comunistas, utopias de direita, utopias de esquerda, enfim toda a política do século passado se organizou a partir desses não-lugares, todos perfeitos e ideais. A partir disso, o que nos resta refletir é justamente o papel das utopias nos dias que correm. É nesse ponto que o discurso do filme caminha para um impasse, especialmente na sua parte final. Ou assume as conseqüências do que foi proposto e a leva adiante, esboçando uma reflexão sobre a ação político despida de qualquer pensamento utópico, ou volta atrás naquilo que foi anunciado, tentando encontrar um espaço da utopia separado da barbárie. Nada exemplifica melhor o caminho optado pelo filme do que a fala daquele professor que se converteu no arauto das novas utopias: este defende, como a grande agenda política do novo século, a reciclagem dos antigos sonhos, lutas, esperanças, a reconstrução das utopias que não vingaram. Para ele, estas se transformaram nas lutas antiglobalização, no movimento ecológico, etc. A recusa de pensar o político como espaço da pura imanência – uma ação vazia de projeto, e por isso profundamente presa ao tempo presente, não mais como um espaço de utopias, mas de verdadeiras desutopias – obriga um novo recuo naquilo que estava anunciado. Ao invés de investir na desconstrução desse horizonte, o que pode propiciar a criação de um “espaço de abertura e de indeterminações, pleno de possíveis”, o documentário de Silvio Tendler prefere permanecer na segurança dos horizontes já conhecidos e trilhados. E como o velho anjo da história benjaminiano, citado numa das melhores passagens do filme, sua obra está dirigida para o passado, vendo apenas um amontoado de catástrofes e ruínas. Se desprender das utopias é também se desprender de uma história presa na constante reiteração de catástrofes passadas.

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3 Comments to “Utopia e Barbárie de Silvio Tendler”

  1. Camila Passatuto disse:

    Fiquei com vontade de conferir esse filme.

  2. Leandro disse:

    O triste é que, como quase todo filme nacional, fica um tempo super curto em cartaz. Se ainda estiver em cartaz, deve estar naquele esquema de um horário na menor sala do cinema. Uma pena. Se conseguir assistir, diga o que achou.

    Um grande abraço

  3. Natiele disse:

    Fiquei encantada ao assistir Utopia e barbárie é simplesmente fantástico traz imagens e depoimentos realmente emocionantes e muito interessantes. Indico ele a todos que procuram saber um pouco mais sobre a situação de história sobre as guerras em outros países e sobre a ditadura no Brasil. Muito interessante.

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