Vamps de Amy Heckerling

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Vamps é uma comédia romântica com vampiros que fala sobre o universo adolescente. Isso por si só bastaria para reforçar todos os meus preconceitos pelo filme. Porém, ao contrário das minhas primeiras expectativas, o filme é um bom exemplo de como é possível criar alguma coisa inventiva mesmo dentro de um gênero batido até a exaustão. A trama gira em torno da dupla Goody e Stacy, duas “jovens” vampiras. E é justamente a discussão sobre a juventude e a veilhice que proporciona o melhor do filme. Ambas as meninas aparentam uma espécie de juventude irreal, como vampiras devem permanecer eternamente incapaz do envelhecimento físico. O problema é que ainda que o corpo não possa se transformar, a forma como elas se relacionam com o mundo pode. E nesse caso a temporalidade desempenha um papel importante. Enquanto Goody já tem uma idade cronológica mais que secular, tendo se transformado em vampira na metade do século XIX, Stacy ainda possui a idade de uma adulta, uma jovem adulta talvez um pouco infantilizada. Por conta desse estar-ai longo demais, a vampira mais velha já não consegue se adaptar e nem entender muito bem o mundo que a cerca. As tecnologias de comunicação, celulares, tablets, computadores, tudo isso é visto como uma ameaça, ou melhor, como algo incompreensível e desprovido de sentido. Ela se pergunta, frequentemente, pelas razões que ainda levam as pessoas a se encontrar ou se reunir em espaços públicos quando elas se mostram incapazes de interagir sem o auxílio das próteses comunicativa dos aparelhos tecnológicos. Stacy, ao contrário, se mostra plenamente adaptada ao mundo adolescente, com suas tecnologias e rituais próprios. O surgimento de um novo aparelho, por exemplo, é motivo para o gozo de uma autêntica alegria. Ela vive seu tempo e sabe nele viver. Já Goody percebe claramente seu deslocamento, seu envelhecimento. Ela pertence a um tempo outro e sente todo o cansaço da obrigação de permanecer eternamente jovem. A impossibilidade de um envelhecimento real, visível no corpo, se torna uma espécie de fardo. Sem poder envelhecer, ela precisa simular uma espécie de adequação ao mundo dos jovens. Isso não deixa de ser uma boa metáfora para o ethos muito contemporâneo da recusa de envelhecer, dessa tentativa de permanecer sempre numa vida jovem, adolescente, quase infantil. Apesar disso, desse elogio do envelhecimento, o filme não assume um tom puramente moralista ou nostálgico. Na realidade, a situação é exatamente outra. O contraste entre as duas produz uma espécie de jogo geracional: para o novo florescer, o velho precisa aceitar seu próprio envelhecimento, resultando numa espécie de envelhecimento maduro, que aceita o distanciamento do mundo. A importância desse jogo geracional ganha contornos mais precisos na parte final do filme, quando Goody precisa escolher entre permanecer jovem ou sacrificar sua juventude eterna para garantir a continuidade da gravidez de Stacy. É como se apenas por meio da aceitação do envelhecimento e da degeneração física que o acompanha fosse possível garantir a continuidade do mundo, o nascimento de novas possibilidades, a juventude enfim. A transação entre o tempo do envelhecimento e o tempo da juventude é o que garante a continuidade do mundo, sua transformação e sua memória, a potência inventiva e a nostalgia (nesse ponto, vale destacar a recuperação nostálgica de algumas cenas clássicas do cinema, especialmente do expressionismo alemão). Essa percepção da passagem do tempo pode ser vista também como uma espécie de eco autobiográfico, já que a diretora (e roteirista) é a mesma que fez muito sucesso com filmes para adolescentes na década de 1990, como em As patricinhas de Beverly Hills (1995). Sem quase produzir nada de lá pra cá, o filme não deixa de ser uma retomada desse lugar que lhe trouxe destaque, o que reforça esse olhar sobre a impossibilidade de permanecer eternamente no mundo dos adolescentes.

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