Verão de J. M. Coetzee

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Verão encerra a trilogia Cenas da Vida na Província, uma espécie de autobiografia do autor sul-africano J. M. Coetzee. É, sem dúvida, uma espécie muito particular de autobiografia, pois está muito longe daquilo que comumente consideramos como um relato biográfico. Este, em geral, funciona a partir de uma espécie de pacto, um pacto de verdade (ou melhor, um regime de verdade, com suas regras próprias). O texto autobiográfico parte quase sempre de uma noção fundamental: trata-se de uma narrativa fidedigna, uma narrativa de si próprio. Em grande medida, a força desse tipo particular de narrativa está nesse compromisso com a fidelidade, já que é a própria vida do autor que fortalece, legitima e atribui sentido ao texto. Assim, o que interessa não é propriamente a qualidade do texto, nem a profundidade das idéias, mas sim o próprio desvelar de uma vida. O interesse cada vez maior nessas narrativas fala muito sobre o espaço que a privacidade, convertida num espetáculo, ocupa em nosso tempo. Parece que todos ansiamos, acima de tudo, por consumir vidas autênticas, experiências fiéis e reais. O problema desse compromisso com o real é que ele resulta numa ordenação do vivido: a vida relatada acaba se tornando compreensível, explicável, analisável. Ainda que o relato seja repleto de eventos, de fatos inusitados, de reviravoltas, no final surge um todo coerente, que sintetiza e explica ao leitor tudo que precisa saber sobre o sujeito da narrativa. É a própria singularidade do vivido que se anula nesse processo, já que não resta zonas opacas, privadas ao olhar curioso do leitor. É por isso que o texto de Coetzee me parece tão interessante, pois opera um profundo deslocamento dessa lógica. Verão não segue a estrutura narrativa tradicional de uma autobiografia, na qual o autor se confunde com o narrador e com o personagem principal da narrativa. O livro é composto por dois tipos de discursos: na abertura e no encerramento encontramos trechos dos diários de J. M. Coetzee. No restante da obra, acompanhamos as entrevistas que Vincent – um escritor que prepara a biografia de um Coetzee já morto – realiza com algumas pessoas próximas do autor. Com isso, ao invés de produzir uma narrativa homogênea e totalizante, cada entrevistado (e o próprio diário) elabora sua própria imagem particular do escritor, marcada pelos sentimentos, conflitos, dúvidas e incompreensões de uma personalidade que não resta capturada e nem explicada. É a partir dessa perspectiva fragmentada e parcial, que não busca uma explicação totalizadora, que se desfaz o sonho de uma reconstituição plenamente fidedigna da vida do autor. No lugar de um suposto Coetzee real, encontramos apenas relatos, fatos inventados (começando pela morte do escritor), opiniões, enfim elementos desprovidos dos lastros de uma vida real. No sentido mais ordinário da palavra, o que aparece no texto não é uma autobiografia, mas uma ficção autobiográfica. Na impossibilidade de separar o verdadeiro do falso, a lembrança da invenção, é a própria natureza da narrativa que se desloca, desfazendo aquele regime de verdade que sustenta o registro biográfico. Dessa maneira, não vemos um texto que tenta capturar o vivido, mas parte dele para experimentar e criar. Em tempos que a exposição do privado assume um papel tão decisivo na construção de nossas subjetividades, as experimentações de Coetzee ganham um sentido bastante radical, pois trilham uma direção diversa, na qual a escrita de si não passa necessariamente pelo desvelo da intimidade, mas sim por um esforço criativo do texto, que não tenta subordinar a ficção à uma vida que lhe ultrapassa e dota de sentido.

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6 Comments to “Verão de J. M. Coetzee”

  1. Kovacs disse:

    Coetzee é sempre uma experiência única e exemplo de literatura com criatividade e objetividade (coisas aparentemente opostas, mas que ele prova serem compatíveis). Bela resenha como sempre, parabéns.

  2. Leandro disse:

    Certamente. É um dos grande escritores contemporâneos, seus livros sempre são pertinentes e de leitura muito agradável. Vale conhecer seus trabalhos. Obrigado pelo elogio. Um abraço

  3. Marta disse:

    Ótimo ponto de vista. Concordo inteiramente.
    Até+,
    M

  4. Leandro disse:

    Marta, obrigado pela visita. Também gostei bastante da sua resenha. Volte sempre.

    Um abraço

    Leandro

  5. thesunsets disse:

    Interessante tua reflexão sobre Verão. Confesso que fiquei bastante curiosa, dado o caráter ficcional da autobiografia — na real, acredito que toda "(auto)biografia" é uma ficção, assim como nossos diários, nossos blogs (embora tratem de críticas/ensaios/relfexões), o jornal, as narrativas da historiografia etc.

    Abraços!

  6. Anonymous disse:

    Acabei de ler o livro ontem e achei impressionante essa escrita de si como sinônimo de liberdade. Coetzee tem a liberdade de se desvendar e se desnudar sem, no entanto, narrar fatos. É mais a imagem que constroi de si mesmo que conta, expressando justamente o contrário do que todas as biografias fazem (construir um 'herói'). Ele se mostra como o antiherói que todos queremos evitar ser, ainda mais numa autobiografia. E recria a si mesmo pelos relatos dos outros, o que é a anti-autobiografia também. Amei a dica de leitura. Obrigada. Abs. @literariamente

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