Vicky Cristina Barcelona

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O filme de Woody Allen é uma bela reflexão sobre nossas vidas e nossos relacionamentos. O básico da trama envolve o triangulo amoroso formado por duas amigas americanas, Vicky e Cristina, e um artista plástico espanhol, Juan. Na realidade o triangulo acaba formando uma figura muito mais complexa, envolvendo outros personagens – o noivo de Vicky, Doug; a ex-mulher de Juan, Maria Elena. As duas amigas apresentam personalidades completamente distintas, a primeira é expansiva e muito inconseqüente, busca desesperadamente se afirmar enquanto artista. Já Vicky é uma pessoa contida e planejada, sua grande meta é alcançar uma vida estável e equilibrada. Muito coerente com seu espírito disciplinado, Vicky trabalha em sua tese acadêmica a respeito da identidade catalã. É por isso que ambas viajam para Barcelona, cidade na qual a trama se desenrola. Lá, as duas conhecem o artista Juan, com quem acabam se envolvendo. Vicky tem apenas um affaire passageiro com o artista, mas intenso o bastante para provocar uma grande crise nos rumos tranqüilos de sua vida. Já Cristina estabelece um relacionamento mais duradouro. Esse relacionamento acaba por agregar também Maria Elena, formando um trio amoroso e afetivo. A partir desses elementos básicos, o filme desenvolve uma contraposição entre dois pares de casais, duas formas de experimentar a afetividade amorosa. De um lado, Juan e Maria Elena formam um casal cheio de paixão e energia, puro hedonismo. Porém, essa energia toda é destrutiva e insustentável. No outro extremo, Vicky e seu noivo formam um casal disciplinado, burocrático, estável, sem muita paixão e nem hedonismo. Ambos os extremos se mostram carentes de sentido, vazios e dolorosos. É isso que atribui sentido aos atos da personagem Cristina. Esta não opera uma síntese entre os dois modos extremos de relacionamento, mas inscreve suas ações em outro registro. Livre tanto dos papéis sociais fixos, das disciplinas e das normas, mas também destituído da violência exasperante de uma paixão em estado puro. É isso que busca Cristina e que se forma entre ela, Juan e Maria Elena. Por isso a personagem Cristina me parece tão interessante e sua ação ganha um sentido político bastante relevante. Isso porque Cristina se recusa a impor sobre si e sobre seu corpo uma “economia dos prazeres” submetida aos dispositivos de poder de nossa sociedade. Na sua recusa em aceitar uma identidade normativa – vale lembrar a cena na qual o noivo de Vicky pergunta a Cristina se ela se considerava bissexual pelo fato de ter transado com a ex-esposa de Juan e Cristina se recusa a concordar com qualquer tipo de rótulo – Cristina age na contramão da biopolítica reinante. Para esta personagem, os afetos e prazeres não se mostram um fim em si mesmo, não caem em uma posição puramente hedonista, mas é como se estes afetos ampliassem sua potência de agir: é a partir da interação de Cristina com seus novos amantes que vai progressivamente afirmando seus talentos como fotógrafa. Desse modo, Cristina recusa aquela paixão agressiva e possessiva, mas também não deixa sua vida ser comandada por uma scientia sexualis disciplinadora e vazia. Esse caminho, um caminho que incomoda por ser pouco usual e muito difícil de ser atingido, escapa do psicologismo reinante em nossas vidas, que submete o prazer e a vida a diversos dispositivos de poder. Por isso, esse filme acaba soando como um dos mais leves e otimistas de Woody Allen. Ademais, revela um sentido político e ético, centrado na capilaridade dos corpos, na vida cotidiana, e não nas macro-estruturas do poder.

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4 Comments to “Vicky Cristina Barcelona”

  1. Mariana Thibes disse:

    Adoro esse filme e achei sua leitura bem interessante, embora diferente da minha, principalmente no que diz respeito ao personagem da Cristina. Na verdade, tenho uma visão mais "negativa" do personagem, rs. Achei que ela também revela uma forma bastante contemporânea de se adaptar aos esquemas psicológicos da sociedade de controle. Ela também me pareceu refém do consumo de sensações: para tentar preencher aquele vazio interno, ela se coloca em uma busca contínua de sentido, em suas viagens, em seus novos amores… mas não se entregando de verdade a eles. Por isso ela só conseguiu expressar alguma arte enquanto estava com o casal, já que, sozinha, ela é vazia. Esse é um personagem realmente interessante, mas ainda acho que revela uma espécie de liberdade falsa; ele diz que você deve ser independente, preservar o individualismo a qualquer custo, não deixando que qualquer tipo de sentimento possa fixá-lo a algum lugar e a alguém, afinal, a mobilidade já é um dos grandes valores da nossa sociedade, não é? Enfim, é um prazer poder discutir essas coisas, rs.
    Abraço,
    Mariana

  2. malvamauvais disse:

    Adorei a sua análise. "Cristina recusa aquela paixão agressiva e possessiva, mas também não deixa sua vida ser comandada por uma scientia sexualis disciplinadora e vazia" >> fico aqui pensando que isso que vc chama de "scientia sexualis disciplinadora e vazia" virou uma também uma norma.
    O legal de Cristina é que ela não sabe o que é; e quem não sabe o que é pode ser qualquer coisa, tornando a vida mais interessante.
    Acho que seu texto tem relação com um meu, que não é sobre filmes: http://bit.ly/b5ew6Y
    Abraço!

  3. Leandro disse:

    Olá Mariana,

    Sua leitura é muito interessante e exige uma reflexão mais profunda sobre a questão. Na realidade, sinto a necessidade de aprofundar o problema dessa espécie de "amor liquido" na sociedade contemporânea. Afinal, o que significa se entregar de verdade a um sentimento? E o que seria uma liberdade autêntica? São duas questões muito importantes, mas que não sei bem como responder. Eu mesmo enxergo um grande problema no que escrevi, afinal em que medida podemos realmente escapar dos dispositivos de poder? Podemos nos relacionar de forma diversa com o poder, dobrá-lo, deslocá-lo, mas será que há como sair dele rumo a uma espécie de liberdade profunda? Espero voltar a esse tema para tentar aprofundar a questão. Uma última coisa, uma leitura que pode te interessar bastante é um livrinho curto do Alain Badiou chamado Éloge de l'amour. Ele trata um pouco do problema da duração na experiência amorosa. É bacana e de leitura bem tranquila.

    Volte sempre e continue me brindando com seus comentários muito interessantes e inteligentes

    Um abraço

    Leandro

  4. Leandro disse:

    Olá Malva, esse termo que menciono é uma referência de um dos mais belos livros da filosofia do século XX, História da Sexualidade I do Michel Foucault. Recomendo muito a leitura. Vou dar uma olhada no seu texto. Obrigado pela leitura e pelo comentário. Volte Sempre.

    Um grande abraço

    Leandro

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