Vincere de Marco Bellocchio

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Vincere, do diretor italiano Marco Bellocchio, é uma extraordinária reflexão sobre o fascismo. Uma reflexão muito particular, pois consegue lançar o olhar para as duas dimensões do fascismo: o histórico e o cotidiano. Como é bastante conhecido, Michel Foucault, num brevíssimo texto, estabeleceu uma distinção muito profícua entre o fascismo como movimento histórico (a tomada do poder na Alemanha e na Itália por Hitler e Mussolini) e o fascismo como uma presença cotidiana em nossas relações conosco e com os outros (“o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”). É no cruzamento destes dois fascismos que o filme situa seu olhar.

A obra de Bellocchio conta a história de Ida Dalser, a primeira esposa de Benito Mussolini. Os dois se conheceram quando Mussolini ainda era um jovem jornalista idealista e controverso, que professava a fé no ideário socialista e na revolução proletária. Rapidamente, Ida se apaixonada poderosamente pela figura energética de Mussolini, devotando todas suas energias para apoiar as causas de seu amante, realizando enormes sacrifícios para apóiá-lo. Os dois acabam se casam no início da Primeira Guerra Mundial e Ida tem um filho de seu marido.

Porém, o jovem Mussolini não passa de um perfeito asceta político, possuído por uma ambição desmedida, que transforma o discurso político numa arma para dobrar o mundo a sua volta, absolutamente ensimesmado pelo seu poder crescente. Tudo que orienta suas ações é a vontade de dominar, de se impor, de se superar. Com isso, Ida torna-se, pouco a pouco, um entrave para suas ambições, uma figura incapaz de acompanhar seu ardor pelo poder.

Toda sua ambição resulta num estrondoso sucesso político. Aproveitando as oportunidades abertas com a guerra, Mussolini se afasta de suas idéias socialistas e, como sabemos muito bem, se torna a mais importante liderança política da Itália nos anos seguintes ao fim da Grande Guerra. Seu fortalecimento tornou oportuno o afastamento do passado, inclusive de Ida e seu pequeno filho. Não há sentimento que poderia rivalizar com seu amor ao poder. Renegando sua antiga família, Mussolini se casa com uma de suas amantes e utiliza todos os meios para manter Ida distante de seu novo caminho.

Este movimento de negação torna-se o ato inaugural do fascismo como movimento histórico. Se até então Mussolini usava sua esposa como um instrumento para alimentar seu apetite pelo poder, a dominando e submetendo, chega um momento que ele simplesmente decide descartá-la. A violência muda e privada é substituída por uma violência ativa e pública. Ida é abandonada e posta sob rígida vigilância da polícia fascista. A sua anulação está na base da construção da nova figura de Mussolini, não mais como um jornalista socialista, mas como o grande líder da Itália fascista.

Este ato inaugural justifica toda a cadeia de violências subseqüentes. Ida, que não desiste de reafirmar seu pertencimento ao passado de Mussolini, acaba sendo institucionalizada num manicômio, onde deveria reconhecer e tratar sua própria loucura. Seu filho também é institucionalizado num colégio interno, afastado da mãe e sem jamais conhecer seu pai. O gesto primeiro do fascismo, constantemente reafirmado e reatualizado, é o da devoção incondicional ao poder, o desejo ardente de anular as vontades a sua volta. A resistência é dobrada com força e violência, até a sua completa anulação. O que o filme aponta, me parece, é como o fascismo é sempre uma potência oculta do desejo autoritário. Indo muito além de uma consistência histórica particular, há uma cotidianidade intrínseca ao fascismo. Revelar esta presença subterrânea infla de atualidade o olhar histórico, pois aponta para a perenidade do fascismo, que antece e procede a figura de Mussolini.

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