Viver sem tempos mortos

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Assisti no domingo ao monólogo “Viver sem tempos mortos”, interpretado por Fernanda Montenegro e dirigido por Felipe Hirsch. O texto é baseado na correspondência entre Simone Beauvoir e Jean-Paul Sartre, a montagem é simplíssima, quase não há cenário, apenas um tablado com um pequeno banco e um foco de luz, a atuação é contida, discreta, tocante. Tudo funciona para potencializar a força do texto, das palavras, idéias e da vida da filósofa francesa. Em pouco mais de uma hora, a atriz encena uma Simone envelhecida que rememora sua vida, os acasos e encontros que a moldaram, suas idéias e suas paixões, e, mais do que tudo, seu relacionamento com Sartre. Acompanhando a narrativa, pude relembrar um momento no qual nutri um grande interesse pelas idéias existencialistas. Foi bem no começo da minha faculdade, quando conheci alguns textos de Sartre, especialmente suas obras literárias, mas também os textos filosóficos mais didáticos, como o Existencialismo é um humanismo, entre outros. Nunca me aventurei com leituras mais complexas, como as grandes obras de Sartre. Mas, o pouco que li me encantou. A idéia de engajamento, subjacente ao ideário existencialista, especialmente a figura do intelectual engajado parecia ser o grande símbolo do mundo acadêmico ao qual entrava. O intelectual, como se sabe, é aquele individuo que está sempre pronto para se apresentar como um crítico da sociedade estabelecida, o defensor das injustiças sociais, um indíviduo capaz de emitir sua opinião sobre a generalidade dos problemas e das questões de relevo. Este modelo de intelectual nasceu na França, com o famigerado caso Dreyfus, e encontrou sua figura mais luminosa em Jean-Paul Sartre. A idéia de comprometimento com uma causa maior, do ato transformador da sociedade, repleto de certa grandiloqüência, é algo que contagia. Com o tempo, porém, fui percebendo que o intelectual nada tinha a ver com o mundo acadêmico, e que na realidade o tipo acadêmico era bem o inverso disso tudo: um sujeito que se dedica ao seu trabalho ultraespecializado, incapaz de emitir uma opinião sobre qualquer coisa que extravase seu tema de estudo, em suma, aquele tipo que não sabe dizer nada de especialmente relevante para qualquer um que não seja outro tipo como ele. O intelectual engajado, nos dias de hoje, se tornou uma espécie de mito. O tema central da peça Viver sem tempos mortos, certamente, é a questão do engajamento. Porém, um engajamento totalmente diferente. É o engajamento de uma existência ética. A Simone Beauvoir que é retratada na peça busca, entusiasticamente, uma fidelidade consigo mesma, uma existência dedicada a um autodescobrimento, a recusa de compromissos desprovidos de sentido, que duram pela pura reiteração de um hábito carcomido. O relacionamento de Simone com Sartre é o grande exemplo disto tudo. Baseado num compromisso de honestidade, os dois guiaram suas vidas com um respeito raro, sem o peso dos votos de matrimônio ou da fidelidade conjugal, mas que não impediram a existência de um afeto especial e duradouro. Este relacionamento abriu mão do formalismo conjugal para se estruturar em torno de outra coisa muito diversa: a fidelidade com a própria existência, no sentido de uma constante criação e recriação de si. Uma postura que recusava entusiasticamente o ato reificante do hábito cotidiano. É a busca por uma existência mais livre, menos amarrada pelos compromissos banais que tomam conta de nossas vidas. O engajamento de Simone não se resume ao seu relacionamento com Sartre, mas está intimamente relacionado com seu projeto intelectual e com seus compromissos políticos. A ação política está, portanto, coerentemente conectada com a política dos afetos cotidianos. Está é a grande dificuldade do caminho traçado por Simone. É por isso que a noção de engajamento é tão importante. O engajamento que aparece no texto é muito diferente daquele do intelectual. É muito mais modesto, menos globalizante, mas muito mais poético. E nenhum pouco menos político. É o engajamento daqueles que buscam viver uma existência menos disciplinada, que tentam criar um mundo mais estético, uma estetização da existência. É o engajamento de uma vida sem tempos mortos, sem o peso mortificante dos compromissos vazios e estéreis. Num momento em que a desilusão com o político e o esfacelamento do ideário do engajamento é a tônica do imaginário social, esta postura ganha uma relevância sem igual: estetizar a existência nada mais é do que reintroduzir a radicalidade do ato político, ato criativo por excelência, na vida cotidiana.

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2 Comments to “Viver sem tempos mortos”

  1. Anonymous disse:

    Leandro,
    gostei muito de sua opinião sobre "Viver sem tempos mortos". Marcia Tiburi também escreveu sobre no seu blog – Simone de Beauvoir de Fernanda Montenegro. O endereço é:
    http://colunas.gnt.com.br/pinkpunk/Um abraço, Clara. (clara@prof.elo.com.br)

  2. Leandro disse:

    Olá Clara, obrigado pelo elogio. Eu gostei muito de uma fala que assisti da Marcia Tiburi, quando ela tratou um pouco do universo escolar, achei ela muito bacana. Valeu pela dica do texto. Volte sempre ao blog. Abraços

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