Existe uma clara aproximação temática entre Match Point e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, o mais novo filme de Woody Allen. O problema de ambas as obras é o mesmo, qual seja, a força do acaso na existência humana. A grande diferença é o tom da narrativa. Enquanto Match Point tinha uma dimensão trágica – por conta do dilema ético imposto ao protagonista diante da teia de acontecimentos que escaparam ao seu controle – o filme mais recente adota um clima muito mais farsesco e irônico. Esse deslocamento acontece, em grande medida, pela adoção da técnica de multiplot: o motor da narrativa não gira em torno de um protagonista destacado, mas no caleidoscópio de ações tomadas por um grupo de personagens. Assim, acompanhamos os dramas de Alfie, um homem que se recusa a envelhecer e acredita possuir o “gene da vitalidade”, por isso decidiu se separar da velha Helena; esta, por sua vez, ficou muito abalada com a separação e só encontrou algum alento nas consultas com uma vidente bem picareta; a filha de Helena, Sally, vive num casamento arruinado e sonha com a possibilidade de uma relação extraconjugal com o seu patrão; seu marido é Roy, um escritor que só conseguiu lançar um único livro de sucesso e tenta dar continuidade a sua carreira, além de passar seu tempo livre admirando a bela mulher da janela em frente. O que há em comum entre todos é a necessidade de projetar-se. Todos estão insatisfeitos com a vida presente e alimentam expectativas cada vez maiores no futuro, depositando todas as esperanças num acontecimento capaz de redefinir a existência patética que levam. É como se todos vivessem em suspensão, apenas aguardando a realização perfeita daquela vida que projetaram. O problema é que estes projetos não se realizam. Os esforços de todos acabam malogrados – a única exceção é Helena – pela força do imponderável. Os personagens seguem obstinadamente seus projetos, na expectativa de dobrar a facticidade da vida. O espectador, porém, é alertado desde o início para o absurdo dessa esperança. É o narrador da trama, um narrador onisciente que funciona como articulador das diversas narrativas, quem explica isso ao espectador, citando Shakespeare: a vida é cheia de som e fúria e no final não significa nada. Pode-se dizer que o filme sustenta até o fim esta premissa, funcionando como um palco no qual todos desfilam o fracasso de lutar contra o absurdo da existência, tentando reintroduzir algum sentido ou justiça moral na vida. É por isso que Helena ocupa um papel chave na trama. Aparentemente, todos os demais depositam suas esperanças num acontecimento imanente, ou seja, da ordem das coisas ordinárias (encontrar o amor verdadeiro, se tornar um escritor famoso, etc.), Helena é a única que segue o caminho da experiência mística ou transcendental. É como se ela tivesse uma consciência do absurdo de sua vida, e por isso recua e deseja uma segurança extramundana, seja através das adivinhações da vidente Cristal ou das palavras de um espírito. Curiosamente, ela é a única que não acaba frustrada ao final. Enquanto os outros encaram o fracasso dos seus planos longamente arquitetados, ela encontra o sossego e a tranqüilidade que tanto ansiava. Essa diferença aparente, no entanto, se revela falsa. Na realidade, o gesto mesmo de projetar-se já é uma recusa da imanência. É como se todos optassem por negar a facticidade da existência, buscando uma existência idealizada, perfeita e fechada, desprovida de riscos ou imprevistos. No final, todos desejam introduzir a mesma segurança extramundana que Helena, porém ela é a única que abraça sem constrangimento essa opção. Essa preocupação é recorrente no universo de Woody Allen, mas fica especialmente clara nessa última obra. Seus personagens são confrontados com duas possibilidades para a condução da vida, ou se recusa a imanência da existência e busca um alívio transcendental (que não precisa ser apenas místico, mas também pode ser farmacológico. Vale lembrar a comparação de um dos personagens entre a ação da vidente com os antidepressivos), ou abre-se para o risco de uma existência desprovida de seguranças ou garantias, imersa na facticidade do mundo. Ainda que a primeira opção possa trazer algum alívio, ela sempre resultará numa existência farsesca e esvaziada, como a placidez de Helena.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos de Woody Allen”

  1. renatocinema disse:

    Peço perdão…….mas, Woody Allen não me convence desde A Rosa Púrpura do Cairo. Mas, tenho um estilo bem diferente.

  2. Leandro disse:

    Renato,

    Gostou muito dos filmes do Woody Allen. Ele é um dos meus diretores favoritos, e mesmo seus filmes considerados menores, me agradam muito. Vc já assistiu Match Point? É excelente, quem sabe com ele você pode reavaliar sua posição em relação aos filmes do diretor. Um abraço

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.