O novo documentário de Davis Guggenheim, o mesmo diretor de Uma verdade inconveniente, parte mais uma vez de um tema de forte apelo midiático. Se no trabalho anterior o objetivo era conscientizar as pessoas sobre a necessidade de mudanças radicais nas políticas de preservação do planeta, agora ele trata de revelar as mazelas que cercam o sistema educacional americano. E como sempre, as mazelas servem de justificativa para a introdução de profundas políticas transformadoras da realidade existente.

A estrutura de Waiting for Superman é muito simples, quase simplória: primeiro apresenta o problema (as escolas públicas não funcionam); depois realiza uma espécie de diagnóstico (os fatores que impedem que elas funcionem); em seguida, apresenta um conjunto de medidas reformadoras (aquilo que vai possibilitar o surgimento de escolas realmente funcionais); finalmente, encerra-se com um apelo emocionante, voltado para a mobilização da opinião pública em torno das propostas apresentadas ao longo do filme. Em síntese, é aquele tipo de documentário baseado numa forte retórica de convencimento, voltado para a criação de uma sensação de bem-estar no público, afinal seu discurso assegura ao espectador de que realmente é possível resolver aquilo que aparece como o grande problema do presente.

É por isso que o documentário não se sustenta do ponto de vista propriamente fílmico, já que apenas repete as soluções já consagradas pelo gênero. Além disso, não seria difícil, por exemplo, questionar ou problematizar os argumentos elencados. No final das contas, o filme trabalha essencialmente com duas variáveis para explicar a crise da educação: legislação excessiva e falta de capacitação dos professores, os quais são protegidos por uma rígida legislação trabalhista e por um poderoso sindicato. A solução para o problema, segundo o discurso do filme, é muito simples: investir numa espécie de sistema de parcerias público-privado (as escolas charters), possibilitando uma grande flexibilização na legislação educacional e trabalhista. Essas escolas adotariam um eficiente sistema de trabalho, no qual o professor seria constantemente avaliado e caso não realizasse adequadamente suas funções, poderia ser demitido e afastado das salas de aula. Esse sistema já existe em algumas regiões e demonstrou, segundo os dados do filme, bons resultados nas avaliações e nos índices de aprendizado dos alunos que lá freqüentam.

Pra qualquer um acostumado com os debates educacionais, fica bem claro que as propostas do documentário não são muito inovadoras. Na realidade, são dois tópicos freqüentes e muito apreciados pelos reformadores. Por isso, não faz muito sentido insistir na validade ou na recusa dessas teses. O que realmente me interessa é algo que aparece incidentalmente no discurso do filme, mas no fundo é uma espécie de pilar estruturante da reflexão lá desenvolvida. Aqui e ali vamos sendo bombardeados por uma série de dados impressionantes: a crescente quantidade de dinheiro público investido no sistema educacional; os numerosos discursos dos mais variados presidentes americanos que colocavam no centro de suas agendas políticas o investimento na educação; o número de pessoas envolvidas com propostas fracassadas de reformas; o desenvolvimento e o aprimoramento de mecanismos de medição e controle do aprendizado.

Enfim, o filme desvela uma verdadeira intensificação das políticas educacionais desde meados do século passado (mas isso poderia ser facilmente recuado, certamente encontraríamos inúmeros exemplos dessas falas desde o início do século, ou mesmo anteriores), envolvendo cada vez mais recursos e um número crescente de indivíduos, sempre em busca do sistema de ensino perfeito e definitivo. Essa intensificação funciona por meio de uma prática discursiva muito poderosa, a crise da educação. Esta parece funcionar como uma espécie de hidra: quanto mais se luta, mais ela aumenta, consumindo uma quantidade sempre maior de recursos e esforços políticos. De todos os lados, não importa o posicionamento político (liberais, revolucionários, esquerda, direita, conservadores, etc.), todos compartilham uma forte crença na capacidade de intervenção da escola no tecido social, garantindo a criação de uma sociedade mais justa e equilibrada. Para isso, basta uma coisa: resolver a crise.

O que é curioso, porém, é que a crise sempre se faz presente. E nem precisamos buscar dados externos ao filme. Quantos presidentes americanos não se pronunciaram a favor de medidas duras para resolver a crise da educação americana? É assim que cada reforma educacional é logo sucedida por outra, sempre visando remediar um problema sem fim. Nesse sentido, o filme longe de qualquer radicalidade ou inovação, é apenas mais uma peça discursiva a reforçar a noção de crise e fracasso educacional. Curiosamente, o documentário exibe um pequeno trecho de um filme antigo, no qual essa lógica aparece com toda clareza. Os personagens, enquanto debatem os problemas da educação (provavelmente em meados da década de 1950 ou 1960), chegam a uma conclusão brilhante: Boas escolas, isso é o que todos querem, mas às vezes gostaria que alguém me explicasse o que tais palavras significam. Parece que todos temos ideias diferentes sobre o assunto, e cada um de nós acha que tem a melhor solução.

As soluções podem variar de acordo com a bandeira política: podemos encontrar defensores de uma reforma neoliberal (como é o caso do próprio filme) ou de uma reforma democrática, humanista, libertária, conservadora, cristã, tecnológica, etc. Porém, ainda que ninguém consiga explicar consensualmente o que significa uma boa escola, quanto mais decidir inequivocamente a forma de alcançá-la, esses discursos funcionam de modo a sempre ampliar o  raio de ação da instituição escolar. Isso pode ser entendido, entre outras coisas, pela integração cada vez maior de indivíduos nos bancos escolares, pela ampliação do número de horas que estes permanecem confinados lá dentro, pelo controle mais rígido das faltas e dos atrasos, pelo combate à deserção docente (licenças e faltas constantes), pela formação cada vez mais numerosa de profissionais de ensino, sempre com formações mais alongadas e capacitações ilimitadas, o desenvolvimento de sistemas avaliativos cada vez mais complexos e nacionais, a crescente mobilização de capital político em torno de questões educacionais, entre muitos outros exemplos.

No amontoado sem fim de reflexões sobre a crise da educação, Waiting for Superman é apenas mais um exemplo de diagnóstico e de prognóstico reformador. Talvez nem seja o mais brilhante, possivelmente é um dos mais enfadonhos, porém ele desvela muito bem a produtividade que essa prática discursiva adotou ao longo da modernidade. Mais do que qualquer outra coisa, é através desse falatório que a escola vai sempre crescendo e, apesar de todas as recusas e resistência, assumindo um caráter constitutivo central na fabricação das subjetividades modernas. Isso que chamamos de sociedade disciplinar não pode prescindir dos mecanismos escolares de captura e controle dos corpos. E estes não podem abrir mão do discurso crítico e suas medidas corretivas.

 

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One Comment to “Waiting for Superman de Davis Guggenheim e a crise da educação”

  1. Carlos Eduardo Fernandes Junior disse:

    Leandro, finalmente assisti ao filme. Quantos problemas. Passei a ficar irritado já na pausa dramática que o diretor faz ao perguntar sobre a morte do pai do adolescente António. Assim como você colocou, o filme é facilmente desconstruído. Para que o enfadonho período não fosse por água abaixo, voltei a me perguntar sobre os sindicatos relacionados a área da educação. Pois, não seriam eles agente que imobilizam o cenário educacional. Nessa aridez do discurso educacional, as propostas de movimento para um um outro lugar, diferente da escola que conhecemos, seria impossível com a permanência dos sindicatos na forma como os concebemos. A Aprofem e o Simpeem são apenas agentes mantenedores da educação atual. Não haverá mudanças com estas instituições a frente.
    Abraços

    Carlos

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