Wall-E

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A animação Wall-E, dos estúdios Pixar, parece, inicialmente, mais um daqueles filmes preocupados em alertar-nos sobre os perigos de uma catástrofe ecológica global. A distopia ecológica é um tema bastante popular, é incrível como esta abordagem conquista tanto as pessoas… felizmente, a história do robô Wall-E não se limita a construir mais um discurso politicamente correto sobre a necessidade de proteger o meio-ambiente. Indo muito além da questão ecológica, o filme aborda, fundamentalmente, a questão da (in)comunicabilidade contemporânea. No mundo de Wall-E, os humanos foram obrigados a abandonar a Terra e se refugiar em uma gigantesca nave espacial até que o planeta esteja novamente em condições de abrigar os seres vivos. O protagonista, no entanto, não acompanhou a fuga, já que foi programado para limpar a sujeirada que foi deixada para trás. Acompanhado apenas por uma barata, Wall-E segue cumprindo sua tarefa, enquanto coleciona um infindável número de objetos que encontra pelo caminho. Wall-E segue em sua missão solitária até o dia em que encontra uma pequena plantinha no meio da sujeira. Esta planta ativa os mecanismos de outro robô, Eva, que tinha como objetivo rastrear a superfície do planeta em busca de sinais de vida. O encontro dos dois e as tentativas de Wall-E em se relacionar com Eva constituem a trama do filme, cheia de peripécias e um leve humor. O que é interessante é o contraste entre os modos de existência de Wall-E e a vida dos humanos, quando o robô chega ao espaço. Os homens vivem cercados por máquinas e não realizam nenhum tipo de atividade, sequer se movem, pois são carregados por uma espécie de cadeiras flutuantes. Suas vidas são todas pautadas pelas rotinas automáticas das máquinas: seus alimentos, suas diversões e até mesmo suas comunicações são operacionalizadas pelo gigantesco computador da nave. Não há uma conversação verdadeira, todos se comunicam apenas pelos computadores; não há sequer um gesto direcionado ao outro, os humanos não se tocam e não se olham, vivem em contato constante com as máquinas. Essa existência particular afetou não apenas os modos de ação, mas até mesmo os seus corpos, a ausência de qualquer atividade, combinada com fartas refeições (fartas, mas insípidas, tudo que os humanos consomem é servido em copos enormes de refrigerante), transformou todos em seres imensamente gordos e incapazes dos mais simples movimentos. Essa existência humana, totalmente maquinal, é contrastada com a vivacidade de Wall-E. O pequeno robô se movimenta pela nave, quebrando as rotinas das máquinas, entrando em contato com os corpos humanos. O que Wall-E mais deseja é segurar a “mão”, criar um vínculo, um afeto, estabelecer uma verdadeira conversação com o outro. O robô acaba sendo o único personagem que busca, realmente, viver uma experiência humana, viver a experiência do gesto, da abertura ao corpo do outro. Este gesto “humano” mostra uma imensa capacidade para erodir os gestos “maquinais” dos homens, quebrando a rotina automática, abrindo canais de conversação. Os homens-máquinas, quando afetados pela ação de Wall-E, não escapam ilesos. O que surge, portanto, metaforizado na figura do robozinho, é o potencial transformador do gesto não-disciplinado, capaz de reinstalar uma vitalidade perdida, quebrando os modos de vida mecanizados. Por isso, num mundo onde os vínculos virtuais – amizades virtuais, namoros virtuais, sexos virtuais – são tão disseminados, o gesto de Wall-E ganha uma dimensão importante, servindo como uma metáfora da nossa dificuldade, ou até mesmo da nossa incapacidade, para estabelecer uma verdadeira comunicação com o diferente, o outro.
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4 Comments to “Wall-E”

  1. mariana disse:

    Lê,

    Agora li seu texto. Amor 10, preguiça O. Gostei dele, pricipalmente do gesto não disciplinado.

    Um gesto não disciplinado pra você, querido.

  2. anareis disse:

    Estou fazendo uma campanha de doações para criar uma minibiblioteca comunitaria na minha comunidade carente aqui no Rio de Janeiro,preciso da ajuda de todos.Doações no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Que DEUS abençõe todos nos.meu e-mail asilvareis10@gmail.com

  3. IcaroReverso disse:

    Sempre o drama do toque. As subjetividades hoje em dia certamente são mais tocáveis,em vista das tecnologias, e são também mais abstratas. De certo modo, o religiosamente abstrato e universal foi substituído pela comunicação via tecnologias. é o humano toque tocando grandes distâncias, na crença de que toca a si mesmo e ao outro. opinião internética, apenas, rs.

  4. Leandro disse:

    Querida,

    adorei seu comentário, quero continuar vivendo cheio de gestos não-disciplinados com você :)

    Icaro,

    Belas palavras, só acho que a tecnologia não substitui o religiosamente abstrato e universal. Ela faz bem o contrário. Ela vive criando um novo universo, mais religioso e abstrato…

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