Yojimbo, o guarda-costas de Akira Kurosawa

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Quando escrevi sobe Os Sete Samurais, argumentei que o filme era uma interessante reflexão sobre a soberania, ou melhor, sobre a possibilidade de recusar o desenlace político que sustenta a figura do soberano. Esse olhar desconfiado e distanciado diante do poder é também o tema central de outro belo filme de Akira Kurosawa, Yojimbo: o guarda-costas. O protagonista da trama é Sanjuro, um samurai sem mestre e sem rumo, vagando pelo Japão rural de meados do século XIX. No meio de suas andanças, Sanjuro acaba encontrando uma pequena aldeia afligida por uma sangrenta disputa entre dois grupos de criminosos rivais. Ambos disputam o controle da região e provocam grande sofrimento à comunidade local. Na inexistência de outra autoridade capaz de garantir a ordem, são esses bandidos que assumem a função de governo. A existência de dois grupos disputando o controle da região, evidentemente, gera uma crescente tensão. O soberano é aquele que afirma a unidade de seu comando, para isso é necessário anular todas as demais resistências e focos de autoridade e poder. Por isso, cada bando busca obstinadamente os meios de superar e destruir o bando rival. É claro que isso implica numa dose ilimitada de arbitrariedade, injustiça e violência. Sanjuro, ainda que inicialmente de forma bastante desinteressada, acaba se envolvendo no conflito da região. E o pior, suas habilidades guerreiras o transformam numa figura disputada pelos dois lados. Todos desejam o apoio de Sanjuro e tentam arrastá-lo como se ele fosse um simples mercenário. O samurai, entretanto, não é bobo e sabe que não existe possibilidade de sair ileso do pacto nefasto que lhe oferecem. Aceitar servir é também aceitar uma espécie de servidão voluntária diante do desmando e da violência. Por isso, Sanjuro olha com desconfiança para as inúmeras ofertas que recebe, sempre acompanhadas de muitas riquezas e benesses. E toma a decisão que melhor lhe parece: ao invés da obediência, oferece a trapaça e o riso sardônico. O samurai arma uma inteligente estratégia, fingindo servir ora um lado, ora outro, esperando apenas que os dois bandos acabem se arruinando mutuamente. Sua opção expressa a reiterada consciência de que diante do poder a única opção (válida) é a galhofa e a recusa. E é justamente essa postura zombeteira que o soberano não pode tolerar jamais. A desobediência é uma ameaça, a resistência é uma afronta, mas o riso trapaceiro é intolerável. E quando seu lado zombeteiro é revelado, a punição é imediata. É diante desse gesto violento que Sanjuro é obrigado a revelar novas artimanhas. A potência sardônica é sempre superior à vontade de dominação. Mesmo sofrendo um bocado, Sanjuro consegue se desvencilhar das armadilhas e destruir seus inimigos. No final, o protagonista repete o mesmo gesto dos guerreiros de Os Sete Samurais, a vitória contra os bandidos não pode significar a formação de um novo soberano (materializado na figura do próprio Sanjuro). É como se não existisse possibilidade de ocupar essa posição sem carregar o signo da violência e do arbítrio. O samurai errante não pretende ocupar o espaço deixado pelos bandidos, por isso depois da vitória ele decide apenas partir. Há uma espécie de ética nesse gesto, um verdadeiro desapego do poder. Sanjuro é aquele que enxerga a possibilidade de perversão que sempre acompanha o desejo de poder. Ele é a antítese da servidão voluntária, daquele que aceita livremente obedecer, na esperança de um dia poder também mandar. E contra aqueles que desejam, mais do que tudo, a sujeição, resta apenas a zombaria e o riso.

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